O futuro do trabalho: o que mudou nas novas gerações

O mercado de trabalho está a mudar rapidamente. O que antes era visto como um emprego de sonho já não corresponde, necessariamente, às expectativas das novas gerações. Hoje, conceitos como flexibilidade, propósito, bem-estar e equilíbrio entre a vida pessoal e profissional estão cada vez mais presentes nas decisões de carreira.

Mas como é que esta mudança está a ser vivida por quem recruta diariamente? Para responder a esta e a outras questões, conversei com Cátia Santos, recrutadora há 15 anos e formadora há 10. Licenciada em Recursos Humanos, é atualmente mestranda em Educação no Instituto Politécnico de Leiria e exerce funções como Diretora Técnica numa agência de recrutamento em Leiria.

Ao longo da entrevista, partilhou a sua visão sobre as novas gerações, o recrutamento, o teletrabalho e os desafios que empresas e profissionais enfrentam atualmente.

Uma mulher sorridente com cabelo escuro pelos ombros, vestida com um blazer e blusa pretos, posa apoiada num corrimão de ferro forjado decorado. Ao fundo, vê-se um pátio amplo com algumas pessoas a caminhar, telhados de edifícios e um rio que corre sob uma ponte, num dia claro e ensolarado.
📑 Índice:


O trabalho já não define quem somos

Durante muitos anos, a profissão era uma das principais formas de medir o sucesso. Hoje, essa realidade parece estar a mudar e as novas gerações olham para o trabalho de uma forma diferente.

Teresa Silva: Que diferenças mais evidentes têm observado na forma como as novas gerações encaram o trabalho?

Cátia Santos: Sinto que o trabalho já não define a identidade da pessoa como acontecia antigamente. Hoje é visto sobretudo como uma forma de ganhar dinheiro para viver a vida, viajar e concretizar projetos pessoais. Sou de uma geração em que era motivo de orgulho ter uma licenciatura ou o título de doutor. Atualmente, muitos jovens sentem que o sucesso pode passar por ter um canal de YouTube ou uma conta de Instagram com milhares de seguidores.


O equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganhou prioridade

O salário continua a ser importante, mas deixou de ser o único critério na escolha de um emprego. Cada vez mais profissionais procuram qualidade de vida e flexibilidade.

Teresa Silva: O que é que as gerações mais novas valorizam hoje num emprego que antes não era prioritário?

Cátia Santos: Valorizam sobretudo o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal. Já não se vive para trabalhar; trabalha-se para viver.


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Teresa Silva: Como é que conceitos como propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional estão a influenciar decisões de carreira?

Cátia Santos: Hoje em dia, um dos principais motivos para mudar de emprego é precisamente a procura de uma melhor qualidade de vida. Muitas pessoas já não mudam apenas por um salário mais elevado, mas porque encontram condições que lhes permitem, por exemplo, trabalhar em regime de teletrabalho ou ter maior flexibilidade.


A flexibilidade trouxe oportunidades... e desafios

O teletrabalho e os modelos híbridos vieram alterar a forma como muitas empresas trabalham. Apesar das vantagens, a sua implementação continua a levantar algumas questões.

Teresa Silva: Quais são os maiores desafios que as empresas enfrentam ao implementar modelos flexíveis?

Cátia Santos: Com uma maior flexibilidade pode surgir também uma menor ligação à empresa, o chamado 'vestir a camisola'. Naturalmente, isto não acontece com todos os colaboradores, porque cada pessoa encara o trabalho de forma diferente, independentemente de estar diariamente no escritório ou a trabalhar a partir de casa.

Gráfico com fundo branco contendo uma citação textual à esquerda e uma fotografia circular à direita. À esquerda, destaca-se um símbolo de aspas cor-de-rosa e o texto: "Já não se vive para trabalhar; trabalha-se para viver." Abaixo, lê-se o nome "Cátia Santos" em rosa e o cargo "Diretora Técnica numa agência de recrutamento" em preto. À direita, dentro de uma moldura circular, surge a fotografia de uma mulher sorridente com óculos de sol e fato preto, apoiada num corrimão de ferro decorado num espaço exterior.

Pergunta: A flexibilidade aumentou a produtividade ou criou novos problemas?

Cátia Santos: Depende muito de cada colaborador. Há pessoas que são bastante mais produtivas em casa e outras que rendem melhor no escritório. Não existe uma resposta única nem uma fórmula exata. Cada realidade deve ser analisada antes de implementar um determinado modelo de trabalho.


O recrutamento também mudou

A tecnologia veio acelerar os processos de recrutamento e alterar as competências mais valorizadas pelas empresas.

Teresa Silva: O processo de recrutamento mudou nos últimos anos? Em que sentido?

Cátia Santos: Mudou completamente. Atualmente, quase todo o processo pode ser realizado online e concluído em poucos dias. Mesmo quando existem várias fases ou entrevistas, a possibilidade de realizar reuniões de forma imediata tornou o recrutamento muito mais rápido e eficiente.


Teresa Silva: Há competências que ganharam mais importância recentemente?

Cátia Santos: Sim. A capacidade de adaptação ao teletrabalho é uma delas. A autonomia, a organização e a gestão do tempo tornaram-se competências cada vez mais valorizadas.


O salário emocional faz a diferença

As empresas já perceberam que um bom salário nem sempre é suficiente para atrair ou reter talento. O ambiente de trabalho, a liderança e o bem-estar têm um peso crescente.

Teresa Silva: Depois de contratar: o que realmente faz alguém ficar (ou sair)?

Cátia Santos: Cada vez menos é o dinheiro. Hoje fala-se muito em salário emocional e isso faz todo o sentido. As pessoas permanecem onde se sentem valorizadas, respeitadas e felizes, e não necessariamente onde recebem o salário mais elevado.


Teresa Silva: O "work-life balance" deixou de ser um benefício para passar a ser uma exigência?

Cátia Santos: Do ponto de vista dos colaboradores, sem dúvida. É cada vez mais raro encontrar candidatos dispostos a aceitar condições que prejudiquem a sua vida pessoal. Recordo-me, por exemplo, de um candidato que entrevistei recentemente e que me disse que, às terças e quintas-feiras, tinha obrigatoriamente de sair às 18 horas para acompanhar a filha ao treino de jiu-jítsu. Era uma condição inegociável para ele.

Imagem com fundo branco contendo uma citação textual e a fotografia de uma mulher num recorte circular. À esquerda, grandes aspas cor-de-rosa destacam o texto: "Cada vez menos é o dinheiro. As pessoas permanecem onde se sentem valorizadas, respeitadas e felizes." Abaixo do texto, lê-se o nome "Cátia Santos" em cor-de-rosa e o cargo "Diretora Técnica numa agência de recrutamento" em preto. À direita, dentro do círculo, a fotografia mostra Cátia Santos sorridente, vestida de preto, apoiada numa grade decorativa com uma paisagem urbana e um rio ao fundo.

Como será o futuro do mercado de trabalho?

A inteligência artificial, a digitalização e a flexibilidade prometem continuar a transformar a forma como trabalhamos nos próximos anos.

Teresa Silva: Como imaginam o mercado de trabalho daqui a cinco a dez anos?

Cátia Santos: Acredito que cada vez mais pessoas irão afastar-se do modelo tradicional de escritório, do trânsito diário e da rigidez dos horários. Ao mesmo tempo, algumas profissões irão transformar-se ou até desaparecer, sendo absorvidas por outras funções, muito por influência da inteligência artificial.


Conselhos para quem procura emprego... e para as empresas

Entrar no mercado de trabalho nunca foi tão diferente. Da mesma forma, as empresas precisam de acompanhar esta evolução se quiserem continuar a atrair talento.

Teresa Silva: Que conselhos dariam a quem está agora a entrar no mercado de trabalho?

Cátia Santos: Não aceitem um emprego apenas porque precisam de dinheiro ou de ganhar experiência. O trabalho deve incluir algo que vos motive, que desperte paixão e esteja alinhado com a vossa vocação.


Teresa Silva: E às empresas: o que precisam urgentemente de mudar para não ficarem para trás?

Cátia Santos: As empresas precisam de ser mais flexíveis e de proporcionar condições de trabalho adequadas, realistas e ajustadas às necessidades atuais dos colaboradores.


Teresa Silva: O que é que as empresas ainda não perceberam sobre esta nova geração?

Cátia Santos: Muitas empresas ainda não compreenderam que o excesso de controlo, a rigidez e uma liderança demasiado autoritária já não têm lugar nesta nova geração. Os trabalhadores estão muito mais atentos à sua saúde mental, ao seu bem-estar e ao equilíbrio familiar. As organizações que continuam presas a estruturas demasiado rígidas acabam por perder talento.


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Se pudesse mudar uma coisa...

Para terminar a conversa, pedi à Cátia Santos que escolhesse uma prática comum no mundo do trabalho que gostaria de ver desaparecer.

Teresa Silva: Se pudesse eliminar uma prática comum no mundo do trabalho, qual seria?

Cátia Santos: Eliminava o controlo rígido de horários, o tradicional 'picar o ponto'. Prefiro modelos de trabalho baseados em objetivos e em listas de tarefas diárias. Se um colaborador concluir as suas responsabilidades às 17 horas, faz sentido que possa desligar o computador e terminar o seu dia de trabalho.


O mercado de trabalho está a mudar. E vocês?

A entrevista com a Cátia Santos mostra que o futuro do trabalho passa por organizações mais flexíveis, lideranças mais humanas e profissionais que valorizam tanto o crescimento na carreira como o seu bem-estar.

Mais do que uma mudança de gerações, estamos a assistir a uma mudança de mentalidade, e as empresas que conseguirem adaptar-se estarão mais preparadas para atrair e reter talento.

E vocês, identificam-se com esta realidade? O que mais valorizam num emprego atualmente? Contem-me nos comentários!


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1 Comentários

  1. "Eliminava o controlo rígido de horários, o tradicional 'picar o ponto'. Prefiro modelos de trabalho baseados em objetivos e em listas de tarefas diárias". Esse é um dos pontos principais. Principalmente jovens adotaram esse hábito da liberdade de horários, por exemplo: entregadores e motoristas de aplicativos, fazem seu próprio horário, descansam quando querem, sem a obrigação do relógio.

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