Vivemos numa altura curiosa.
Nunca foi tão fácil ter opinião. Nunca foi tão rápido partilhá-la. E, ainda assim, nunca pareceu tão confuso perceber onde acaba a liberdade… e começa o caos.
Entre comentários impulsivos, notícias partilhadas sem contexto e debates que rapidamente saem do controlo, há uma pergunta que se impõe: será que usamos realmente bem esta liberdade que tanto valorizamos?
Foi com este ponto de partida que me sentei (virtualmente) à conversa com a Inês Reis, jornalista no Porto Canal, para tentar perceber o que acontece realmente à liberdade de expressão, ao jornalismo e, já agora, a nós enquanto consumidores de informação.
Spoiler: não saí desta conversa exatamente mais descansada.
Quem é a Inês (e porque é que esta conversa faz sentido)
A Inês Reis é jornalista desde 2015 e, atualmente, integra o Porto Canal, onde assume vários papéis: pivot, repórter, apresentadora e coordenadora de conteúdos informativos. Ou seja, vive o jornalismo em várias frentes, o que lhe dá uma visão bastante completa do que se passa nos bastidores da informação.
Mas há um detalhe que torna esta conversa ainda mais interessante: entre 2018 e 2021, afastou-se do jornalismo e trabalhou na área dos conteúdos digitais. E isso, num tema como este, faz toda a diferença.
Porque, no fundo, a Inês conhece os dois lados, o da produção de informação e o da sua circulação no mundo digital.
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“Todos têm voz”… mas isso é mesmo liberdade?
Quando pensamos em liberdade de expressão hoje, é quase inevitável associá-la às redes sociais. Afinal, nunca foi tão simples partilhar uma opinião, comentar um tema ou reagir a uma notícia.
Mas será que esta facilidade se traduz, automaticamente, em mais liberdade? Ou estaremos a confundir acesso com consciência?
Foi precisamente por aqui que comecei.
Teresa Silva: Como define, hoje, a liberdade de expressão num mundo digital onde todos têm voz?
Inês Reis: Os princípios da liberdade de expressão no mundo digital deveriam continuar a ser os mesmos. Mas o estado da liberdade, com a evolução das redes sociais, atravessa tempos difíceis e perigosos. Há desafios e responsabilidades acrescidas a cada dia. E torna-se num paradoxo porque devemos continuar a lutar por uma liberdade de expressão que continua ameaçada - nunca está garantida, na verdade - mas, ao mesmo tempo, foi a liberdade desenfreada e a tolerância ilimitada que têm levado ao desaparecimento dessa mesma tolerância, que é um direito fundamental.
É certo que o meio digital veio proporcionar um espaço público que democratiza a vinculação de opiniões e a partilha de conteúdos de uma forma nunca antes tão acessível; mas, ao mesmo tempo acabamos por assistir a uma falsa sensação de impunidade, escondida atrás de um ecrã.
E, na verdade, é importante reconhecer que não existe liberdade sem responsabilidade, só que nos dias que correm, assistimos a uma crescente vontade de deter poderes, fugindo à responsabilização.
A liberdade de expressão é um direto fundamental, mas não é absoluto e, por isso, deve salvaguardar os interesses público e individual.
A liberdade está mais protegida… ou mais frágil?
À primeira vista, poderíamos dizer que nunca tivemos tanta liberdade como hoje. Mas quando olhamos com mais atenção, para o tipo de discurso que circula, para como se espalha e para o impacto que tem, a resposta já não é assim tão óbvia.
Há uma diferença importante entre ter espaço para falar e ter um ambiente saudável para o fazer.
Teresa Silva: Acredita que a liberdade de expressão está mais protegida ou mais ameaçada do que há 20 anos?
Inês Reis: Acredito que está mais ameaçada, devido aos novos desafios que enfrenta. A polarização de opiniões, a desinformação e os discursos de ódio têm contribuído para fragilizar e deturpar os princípios da liberdade de expressão.
Nunca tivemos tanto acesso à liberdade como agora e, consequentemente, nunca esteve tão vulnerável.
Onde entra (ou falha) a responsabilidade?
Há uma frase que todos já ouvimos e que, teoricamente, todos concordamos. Mas a verdade é que, na prática, parece cada vez mais difícil aplicá-la, especialmente no mundo digital.
Entre a rapidez com que reagimos e a distância que um ecrã cria, a noção de limite torna-se… difusa.
Por isso, fazia todo o sentido trazer esta questão para a conversa.
Teresa Silva: Onde termina a liberdade de expressão e começa a responsabilidade?
Inês Reis: A sabedoria popular, por algum motivo, costuma ser bastante assertiva quando refere que ‘a minha liberdade termina onde a do outro começa’… e penso que é bem certo. A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não pode, nem deve transgredir o direito individual do próximo. É uma falácia acreditarmos que vale tudo e que estamos isentos de limites éticos e legais, enquanto elementos integrantes de uma sociedade.
O problema não é ter opinião (é tudo o resto)
Vivemos numa era em que ter opinião é quase obrigatório. Sobre tudo. Constantemente. E, de preferência, com rapidez.
Mas será que estamos realmente preparados para isso?
Ou será que confundimos liberdade com validação imediata?
Esta foi uma das partes da conversa que mais me ficou.
Teresa Silva: Sente que, hoje em dia, há confusão entre “liberdade de expressão” e “direito a dizer tudo sem consequências”?
Inês Reis: Acredito que sim. As redes sociais contribuíram em larga escala para essa falsa crença.
O problema não reside no facto de as pessoas terem uma opinião e liberdade para a expressar. Isso é ótimo, é sinal de que a democracia ainda vai estando viva e de boa saúde. O flagelo é as pessoas, hoje em dia, terem opiniões sobre tudo, mesmo sem saber do que falam e, ainda assim, sentirem-se validadas para as difundir.
As redes sociais mudaram o jogo (e não foi pouco)
A forma como consumimos informação mudou, e muito. Já não dependemos apenas dos meios tradicionais e, à primeira vista, isso até pode parecer uma vantagem.
Mas quando a informação chega filtrada por algoritmos, preferências pessoais e bolhas digitais, há uma questão inevitável: será que estamos realmente bem informados?
Ou apenas confortavelmente informados?
Teresa Silva: Considera que as redes sociais retiraram autoridade ao jornalismo tradicional?
Inês Reis: Sim, e um exemplo claro disso é ouvir frequentemente jovens a asseverar que não vêem televisão, nem lêem jornais porque não é cativante e que se quiserem aceder a informação, recorrem às redes sociais, onde podem personalizar os conteúdos de interesse.
O problema é que, logo à partida, o universo da amostra que vai aparecer no feed vai ser bem mais reduzido e por consequência condiciona logo aí o acesso à informação.
Outra problemática, é a falsa crença de que as redes sociais permitem, muitas vezes, ir à fonte da informação, sem a comunicação social como intermediário. O perigo está na falta de espírito crítico para averiguar se a informação é fidedigna. E é aqui que entra o papel fundamental do jornalismo: servir como um filtro que escrutina e cruza a informação.
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Desinformação: o elefante na sala
Fala-se cada vez mais de desinformação, mas talvez ainda não o suficiente para o impacto real que tem no nosso dia a dia.
Não se trata apenas de notícias falsas. Trata-se da forma como isso influência decisões, perceções e até relações sociais.
E é aqui que o problema deixa de ser apenas mediático… e passa a ser estrutural.
Teresa Silva: O que mais a preocupa na atual cultura de desinformação?
Inês Reis: Enquanto cidadã, preocupa-me que nos estejamos a guiar, cada vez mais, sob falsos ideais e verdades, o que acaba por reforçar a insegurança e ameaçar a coesão social.
Enquanto jornalista, é preocupante perceber que a credibilidade dos órgãos de comunicação social está, mais do que nunca, em risco, tornando-se consequentemente numa ameaça para a estabilidade da democracia.
Afinal, de quem é a responsabilidade?
Quando falamos de desinformação, é tentador apontar o dedo. Às redes sociais. Aos média. Às pessoas.
Mas a verdade raramente é assim tão simples.
E foi precisamente isso que quis perceber: afinal, quem deve assumir este combate?
Teresa Silva: Quem tem maior responsabilidade no combate à desinformação?
Inês Reis: Penso que é uma responsabilidade repartida. Os jornalistas, enquanto profissionais de comunicação, regidos por um código ético e deontológico, têm a responsabilidade de estar na primeira linha do combate à desinformação, noticiando com rigor e escrutínio o que, sejamos honestos, nem sempre acontece, face às dificuldades que o setor atravessa.
Já aos consumidores, exige-se que sejam mais críticos na hora de consumir informação. Enquanto sociedade, é fundamental apostar em educação para a literacia digital, para permitir que os utilizadores consigam reconhecer fontes de informação fiáveis e ajam de forma ética.
As redes sociais, por sua vez, já que são consideradas espaços de comunicação pública, têm que estar sujeitas a deveres de moderação de conteúdos potencialmente prejudiciais e ser-lhes exigida uma maior transparência e responsabilidade. Para isso, é necessária uma maior regulação e legislação por parte das plataformas para combater as Fake News e as manipulações, sem censurar a circulação livre de ideias.
Conclusão
Saí desta conversa com a sensação de que não estamos menos livres.
Mas também não estamos necessariamente melhores.
Talvez estejamos só… mais expostos. Mais rápidos a reagir. E, muitas vezes, menos disponíveis para parar, questionar e pensar.
E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira diferença.
Se quiserem acompanhar o trabalho da Inês Reis, e perceber na prática aquilo de que falámos ao longo desta entrevista, podem vê-la no Porto Canal, onde continua a dar voz à informação com o rigor que esta exige.
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