Há histórias que não se contam logo. Não porque não doam, mas porque ainda não têm forma. Precisam de tempo, de distância e, muitas vezes, de uma boa dose de honestidade consigo mesma para fazerem sentido.
Esta é uma dessas histórias.
Durante muito tempo, pensei que tinha sido “apenas” uma relação que acabou. Simples. Linear. Quase limpo no papel. Mas a verdade é que, quando olhamos com mais atenção, poucas relações são assim tão simples, sobretudo aquelas em que crescemos, mudamos e, sem nos apercebermos, vamos deixando pedaços de nós pelo caminho.
E foi aí que percebi algo desconfortável, mas estranhamente libertador: o meu ex marido não conheceu apenas uma versão de mim. Conheceu várias.
E, de certa forma, acabou por “casar” com todas elas.
As versões de nós que ninguém vê
Quando entramos numa relação, levamos connosco aquilo que somos naquele momento. Mas ninguém permanece igual.
Nós mudamos. Adaptamo-nos. Crescemos. E, por vezes, encolhemos também.
Há a versão entusiasmada, a que diz sim a tudo no início.
A versão conciliadora, que evita conflitos para manter a paz.
A versão exausta, que já não sabe bem onde começa ou acaba.
E, por fim, a versão que acorda.
Aquela que percebe que já não se reconhece na história em que está.
E é aqui que tudo fica mais complexo.
Porque quem está ao nosso lado nem sempre acompanha todas essas mudanças. Ou, mais honestamente, nem sempre repara nelas.
E assim, sem grande drama visível, vamos acumulando versões diferentes de nós dentro da mesma relação.
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Quando deixamos de nos reconhecer
Uma das coisas mais estranhas que podemos sentir numa relação longa não é o fim. É o “durante”.
É acordar um dia e perceber que estamos ali… mas já não somos bem nós.
Já não falamos da mesma forma. Já não reagimos da mesma forma. Já não nos escolhemos da mesma forma.
E não acontece de um dia para o outro.
É um processo silencioso.
Uma adaptação aqui, um “deixa estar” ali, um “não vale a pena discutir” acolá.
Até que, sem perceber, deixamos de ser uma pessoa inteira para sermos uma versão funcional dentro de uma dinâmica.
O que esta reflexão me trouxe
Demorei algum tempo até conseguir olhar para isto sem culpa.
Porque é fácil cair na narrativa de “eu mudei demais” ou “eu devia ter sido mais isto ou aquilo”.
Mas a verdade é mais simples e mais humana do que isso.
Nós mudamos porque estamos vivos.
E uma relação saudável deveria ser capaz de acompanhar essas mudanças, não congelar uma versão antiga de quem somos.
Quando digo que o meu ex marido acabou por “casar” com várias versões de mim, não é uma crítica. É uma constatação.
Ele conheceu a versão inicial.
Conviveu com versões intermédias.
E, em alguns momentos, provavelmente já não reconhecia a versão final.
Mas isso também me inclui a mim.
Eu também vivi versões diferentes de mim dentro daquela relação.
E nem todas eram alinhadas entre si.
O ponto de viragem
O mais importante nesta reflexão não é apontar dedos.
É perceber o que fazemos com estas descobertas.
Porque há duas opções: ficar presa na narrativa ou transformá-la em consciência.
E foi isso que comecei a fazer.
Perceber onde me perdi.
Perceber onde me adaptei demais.
Perceber onde deixei de ouvir-me.
E, sobretudo, perceber que voltar a mim não era um ato de egoísmo, era um ato de sobrevivência emocional.
O vídeo desta reflexão
Se quiserem ver esta conversa de forma mais pessoal e direta, podem assistir ao vídeo completo no meu canal de YouTube. Lá partilho esta reflexão de forma ainda mais íntima, com todos os detalhes e nuances que nem sempre cabem num texto.
O que isto nos ensina sobre relações
Se há algo que quero que levem desta reflexão é isto:
Nenhuma relação deveria exigir que deixemos de nos reconhecer para funcionar.
Mudança é inevitável.
Desaparecer dentro de uma relação não deveria ser.
E, muitas vezes, o problema não é termos mudado demais, é termos ficado tempo demais sem comunicar essas mudanças.
Sem espaço.
Sem diálogo.
Sem retorno.
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Um convite final
Se este texto vos fez pensar em alguém, ou em vocês próprias, então talvez valha a pena não deixarem essa reflexão por aqui.
Porque há algo muito poderoso em reconhecer padrões, mesmo aqueles que já não podemos mudar.
Mas podemos sempre mudar o que fazemos com eles daqui para a frente.
Antes de irem embora…
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Mudanças de comportamento fazem parte da rotina de quem evolui. Quem isso não aceita, dificilmente viverá um amor recíproco .
ResponderEliminarAbraço amigo.
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