Tipos de violência contra mulheres e adolescentes
A violência contra mulheres e adolescentes não é uma realidade única nem linear. Manifesta-se de múltiplas formas, muitas delas invisíveis, normalizadas ou socialmente toleradas. Compreender os diferentes tipos de violência é o primeiro passo para reconhecer situações abusivas e quebrar ciclos de silêncio.
Teresa Silva: Pode explicar de forma geral quais os tipos de violência que as mulheres e adolescentes podem sofrer, dentro e fora de casa?
Susana Pereira: Começaria por dizer que, pese embora os números da violência continuem a ser expressivos “em nome do feminino”, a violência não escolhe género nem grupos sociais. Ainda assim, mulheres e adolescentes continuam a ser as principais vítimas.
Existem vários tipos de violência. A violência física é uma das formas mais visíveis e envolve agressões que causam dor ou lesões, como empurrões, estalos, queimaduras, entre outros exemplos. A violência psicológica afeta profundamente o bem-estar emocional e manifesta-se através de humilhações, ameaças, manipulação, controlo ou isolamento.
Existe também a violência sexual, que envolve qualquer ato sem consentimento, incluindo abusos, assédio e exploração. Em muitos casos, esta forma de violência está associada ao tráfico de seres humanos, um crime cuja visibilidade e intervenção continuam muito aquém do necessário.
A violência económica limita o acesso da vítima a recursos financeiros, trabalho ou educação, comprometendo a sua autonomia e reforçando o isolamento. Por fim, existe a violência simbólica, que reforça desigualdades e estereótipos de género através de normas e comportamentos sociais que desvalorizam mulheres, adolescentes e todas as pessoas consideradas “fora do normativo”.
A violência é um fenómeno complexo e muitas vezes silencioso. Informar-se e desenvolver pensamento crítico é essencial para quebrar a normalização destas práticas e promover relações baseadas no respeito, na igualdade e na dignidade humana.
Onde a violência acontece com mais frequência
Durante muito tempo, a violência foi associada a determinados contextos sociais ou económicos. No entanto, a realidade mostra que pode acontecer em qualquer lugar, embora existam espaços onde o risco é claramente maior.
Teresa Silva: Existem zonas ou contextos onde a violência contra mulheres é mais frequente?
Susana Pereira: Sim, sem dúvida. Apesar de a violência poder ocorrer em qualquer lugar e com qualquer pessoa, o ambiente doméstico continua a ser o contexto mais comum e perigoso.
Nas relações íntimas, onde existe proximidade com o agressor e, em muitos casos, dependência emocional e económica, o silêncio tende a prevalecer em detrimento da denúncia.
Apesar de o domicílio representar o espaço de maior perigosidade, a violência também ocorre em espaços públicos e institucionais. Não existe um único local onde a violência aconteça, mas determinados contextos sociais e relacionais criam condições que facilitam a sua ocorrência, ultrapassando largamente os limites do espaço privado.
Que apoios existem para mulheres em risco em Portugal
Conhecer os recursos disponíveis pode ser determinante para salvar vidas. Em Portugal, existem respostas institucionais e comunitárias que procuram apoiar mulheres em situação de violência, ainda que nem sempre sejam suficientes ou isentas de falhas.
Teresa Silva: Que tipo de apoio existe atualmente para mulheres em situação de risco?
Susana Pereira: Em Portugal, existem vários apoios disponíveis no âmbito da violência doméstica, que combinam serviços de emergência, apoio psicológico, jurídico, social e abrigo seguro.
Uma das primeiras respostas é a Linha Telefónica de Informação às Vítimas de Violência Doméstica (800 202 148), gratuita, anónima e confidencial, disponível 24 horas.
Existe também uma rede de centros de atendimento, organizada pelo Estado, que assegura acolhimento, avaliação da situação, apoio psicológico, jurídico e social, bem como encaminhamentos adequados às necessidades de cada vítima.
Para mulheres em risco elevado, existem casas de abrigo, onde podem permanecer temporariamente com os seus filhos. Apesar de serem uma resposta fundamental, estas soluções acarretam uma forma de violência simbólica: são as vítimas que têm de abandonar a sua casa, enquanto o agressor permanece. “Fará isto sentido? Não, não faz.”
Organizações como a APAV complementam esta resposta com apoio jurídico, psicológico e comunitário. Em situações de perigo iminente, deve ser acionado o 112.
Pedir ajuda: um passo difícil, mas essencial
Decidir pedir ajuda é, muitas vezes, um processo interno longo e doloroso. O medo, a culpa e a insegurança fazem parte da experiência de muitas mulheres que vivem situações de violência.
Teresa Silva: Quando uma mulher decide pedir ajuda, quais são os passos que deve seguir?
Susana Pereira: O primeiro passo é reconhecer que a violência existe e compreender que a culpa nunca é da vítima. A partir daí, deve procurar apoio seguro e confidencial, seja junto de alguém de confiança ou via linhas especializadas.
Em situações de perigo imediato, deve contactar o 112. As linhas de apoio especializadas permitem obter orientação sobre direitos e serviços disponíveis. Os centros de atendimento oferecem apoio psicológico, social e jurídico, além de ajudarem a avaliar o risco e planear a segurança.
A denúncia às autoridades não é obrigatória para receber apoio, mas pode ativar medidas legais de proteção. Este processo deve respeitar o tempo, as decisões e a segurança da mulher.
Sair da violência não é o fim do caminho
Existe uma ideia errada de que sair de uma relação violenta resolve automaticamente o problema. Na realidade, o processo é longo, exigente e repleto de obstáculos.
Teresa Silva: Que obstáculos existem para vítimas que conseguem sair de situações de violência?
Susana Pereira: As vítimas enfrentam um impacto emocional profundo, marcado por medo, culpa, vergonha e trauma psicológico. A dependência económica, a falta de habitação e os processos judiciais longos são desafios frequentes.
A pressão social e familiar, aliada à normalização da violência, leva muitas mulheres a desistir. Não porque querem, mas porque não veem alternativas. Dizer “basta” é um ato de profunda coragem e amor-próprio.
Educar para prevenir a violência
A prevenção da violência começa muito antes da denúncia. Começa na forma como educamos, comunicamos e nos relacionamos enquanto sociedade.
Teresa Silva: Como podemos educar homens e mulheres para relações mais saudáveis e respeitosas?
Susana Pereira: Educar para relações saudáveis exige um trabalho contínuo baseado na igualdade, no respeito e na responsabilidade coletiva. Esse processo começa na família e na escola, através da educação para a igualdade de género, da empatia e do diálogo.
É essencial promover o respeito pelos limites do outro, o consentimento e a rejeição de comportamentos de controlo ou violência. Questionar estereótipos de género e envolver os homens na prevenção da violência é indispensável.
As consequências invisíveis do abuso psicológico
Nem todas as feridas se veem. O abuso psicológico pode deixar marcas profundas e duradouras, afetando várias dimensões da vida de uma mulher.
Teresa Silva: Que efeitos a longo prazo pode ter o abuso psicológico na vida de uma mulher?
Susana Pereira: O abuso psicológico pode levar ao desenvolvimento de ansiedade, depressão, stress pós-traumático, baixa autoestima e sentimentos persistentes de culpa. Afeta também a vida profissional, social e a saúde física.
As crianças expostas à violência são igualmente vítimas, mesmo que não sofram agressões diretas. Ignorar este impacto é desvalorizar profundamente o seu desenvolvimento emocional e humano.
O que ainda falta mudar para proteger mulheres e adolescentes
Apesar dos avanços legais, continuam a existir falhas estruturais na proteção e prevenção da violência de género.
Teresa Silva: Que mudanças sociais e políticas ainda considera urgentes para proteger as mulheres e adolescentes?
Susana Pereira: São necessárias mudanças sociais e políticas profundas. No plano social, é fundamental combater a normalização da violência e promover educação para a igualdade desde a infância.
No plano político, é urgente investir em serviços de apoio, reforçar a aplicação das leis, garantir formação contínua de profissionais da justiça, saúde, educação e forças de segurança, e erradicar o estigma associado à denúncia.
Uma mensagem final de esperança e coragem
Num dia que serve também para lembrar que os direitos das mulheres continuam a ser uma luta diária, a mensagem final é clara.
Teresa Silva: Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que possam estar a viver situações de violência ou assédio?
Susana Pereira: Não estão sozinhas. A violência nunca é culpa vossa. Pedir ajuda é um ato de coragem. Existem caminhos possíveis para a segurança, a recuperação e a reconstrução da vida. Todas as pessoas têm direito ao respeito, à dignidade e a viver sem medo.
Conclusão: quebrar o silêncio é um ato coletivo
Assinalar o Dia Internacional da Mulher é também reconhecer que a violência contra mulheres e adolescentes continua a ser uma realidade presente e, muitas vezes, silenciada. Esta entrevista com a Susana Pereira procura informar, consciencializar e dar contexto a um problema que não é individual nem privado, mas social e coletivo.
Falar sobre violência é desconfortável, mas necessário. Só quando nomeamos o problema, reconhecemos os seus impactos e conhecemos os recursos disponíveis é que conseguimos quebrar ciclos de normalização, culpa e silêncio. Ninguém deve viver com medo, controlo ou abuso, e pedir ajuda é, sempre, um ato de coragem.
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